Eva, os Herz e a Livraria Cultura

 

É difícil imaginar que algo tão incrivelmente grandioso, não só em tamanho mas em espírito, nasceu de algo tão tímido e modesto. A Livraria Cultura teve como ponto de partida, o sonho de sua idealizadora Eva Herz, há mais de 70 anos. Dona Eva, como era chamada, gostava tanto dos livros que decidiu torná-los um negócio de família, abrindo a primeira portinha em sua própria casa.

Começou com uma ideia genuína de economia criativa o aluguel de 10 exemplares de livros, para imigrantes, nos idiomas que sempre fizeram parte de sua vida, o alemão e o inglês. Ela e seu marido, Kurt Herz, eram judeus e fugiram da Alemanha nazista em 1938, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Vendiam os livros para ajudar nas despesas da casa, recebendo os clientes interessados ali mesmo na Rua Augusta, em São Paulo, próximo de onde hoje fica uma de suas maiores lojas.

Loja aberta em 69, no Conjunto Nacional

Loja aberta em 69, no Conjunto Nacional

 

Ao longo do tempo ela percebeu que o que queria mesmo era criar um lugar onde as pessoas pudessem compartilhar seus interesses, um ponto de encontro, conversas e troca de conhecimento. Então, de forma natural, o negócio se ampliou e tomou as merecidas proporções. Eva nunca se enganou, e mesmo passando por dificuldades financeiras para investir em seu sonho, em todas as vezes que olhava para o pequeno negócio ela sabia que um dia seria uma grande loja.

É surpreendente que ela, em 1947, já compreendesse tão profundamente um conceito tão atual de marketing: os negócios são feitos por pessoas, para pessoas. Já tinha uma percepção de que as pessoas ali iriam para ler os livros que queriam comprar, e que isso não os faria deixar de querê-los. A fila na porta de sua casa, para alugar os livros, só aumentava.

Eva com o marido Kurt, o filho Pedro e os sobrinhos, na livraria nos anos 80.

 

Isso é uma das coisas que mais me impressiona na Livraria Cultura. As pessoas chegam, escolhem o seu livro, sentam e lêem. O mais comum de se pensar é: por que as pessoas comprariam os livros depois de já terem lido?

Talvez a resposta esteja no fato de tantas pessoas comprarem livros que sequer lêem. Assim, dá pra pensar que não compramos os livros exatamente pelo conteúdo, mas pelo conjunto da obra, e porque ficam bonitos em nossas prateleiras. Mas acredito que não seja só isso, que não seja tão simples e que vá além disso.

As pessoas amam quem os deixa ler seus livros, se apaixonam pelo espaço que permite que eles façam isso e querem retribuir de alguma forma. Isso fala muito sobre colaboratividade, sobre economia colaborativa, economia criativa e outros preceitos modernos. Aparentemente e incrivelmente, Eva já tinha isso em si, há um tanto de tempo atrás. A livraria crescia tanto que acabaram se mudando para o Conjunto Nacional, um prédio recém inaugurado na Avenida Paulista. Era mais uma pista de que Eva tinha encontrado o propósito de sua vida.

Em 1969 o filho do casal que cresceu em meio as prateleiras de livros, Pedro Herz, assumiu as rédeas do empreendimento que passou a se chamar Livraria Cultura. Ele, que parece ter aprendido as lições de marketing e humildade com seus pais, via a fila de clientes crescer cada vez mais, mas não só isso: via (e ainda vê) crescer a fila de “lovers”.

Pedro, Eva e Kurt Herz.

 

Pedro iniciou na livraria recebendo um salário baixíssimo, isso porque sua mãe não permitiu que fosse voluntário como ele havia proposto. Ele já era formado em administração e já era casado, nessa época. Começou por amor, e talvez com os mesmos sentimentos de amor e respeito que recebia dos clientes. Mais uma lição: cultura empresarial.

Com toda essa história e conhecimento é impossível não se inspirar em tudo que faz parte do universo da Livraria Cultura. Eu virei fã, e você?

 

Beijos e qualquer coisa, conte comigo!

Gi Salvatti.

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