Viagem para o Pará: Belém – Parte II

Igarapé - Belém do Pará

 

Já falei de uma parte da minha aventura por Belém do Pará no post anterior, e aqui pretendo trazer mais dessa linda cidade histórica (que não cabe em um post só) pra você. Vou falar um pouco dos passeios sensacionais e pessoas incríveis que conheci por lá.

No entorno da cidade há várias ilhas, e para se locomover de barco entre elas é preciso conhecer muito bem a região. Isso porque a maré muda totalmente a cada 6 horas e pode acarretar no encalhamento da embarcação.

História

Belém foi uma cidade muito importante para o Brasil na época da colonização. Foi criada a certa distância do mar para evitar as invasões marítimas, principalmente pelos franceses e holandeses. Na época das capitanias hereditárias, Belém foi eleita a capital do norte, justamente pela sua posição geográfica estratégica.

Aconteceram alguns conflitos históricos na região norte, que abrangeram também o território paraense. A independência do Brasil demorou a se concretizar nas regiões mais afastadas das “margens do Ipiranga”, como o Pará, que sofreram ainda por anos uma forte influência portuguesa. Grupos de portugueses reacionários queriam manter o Brasil como colônia portuguesa. Dom Pedro I não tinha relevância política e não era respeitado por esses grupos.

Nesse contexto, surgiu a chamada Guerra da Independência, que perdurou por anos e deixou à própria sorte os brasileiros da região do Grão-Pará (que compreendia os atuais estados do Pará, Amazonas, Amapá, Rondônia e Roraima). A Revolta da Cabanagem aconteceu nesse duro período (1835-1840) de fome e miséria, e teve esse nome porque as pessoas que se revoltaram no conflito ainda moravam em cabanas. Contam por lá uma história que, quase 200 anos depois, ainda choca. É compreensível, já que muitos dos moradores de lá são descendentes diretos dos protagonistas. Se não quiser ler e ficar agoniado, pule a história (AQUI).

Numa noite, pouco tempo após a declaração de independência do Brasil, alguns soldados brasileiros e entusiastas da independência, revoltados com a insistência destes grupos da resistência portuguesa, atacaram diversas casas e comércios de portugueses. O Império de Portugal, que ainda contava com tropas (lideradas por um comandante do exército inglês) nos navios atracados ali perto, ainda oferecia proteção e defendia os interesses dos cidadãos portugueses que permaneciam por lá, prenderam quase 300 homens (alguns estavam dentro de suas casas e que sequer teriam participado da situação).

No dia seguinte, fuzilaram alguns dos prisioneiros e trancaram o resto no porão de um dos navios onde havia pouco ar, nenhuma água e nem comida. Pelas condições os prisioneiros começaram a gritar e ameaçar os guardas, que despejaram sacos de cal virgem sobre eles. O pó de cal tapou a única fresta por onde o ar entrava. No dia seguinte, foram encontrados cerca de 250 homens mortos por asfixia. Esse acontecimento ficou conhecido como massacre do “Brigue Palhaço”.

Recomendo reservar um dia para conhecer a região da Cidade Velha em Belém: há muita riqueza histórica do nosso país (e dos países envolvidos) nesse lugar.

Onde ir?

Forte do Presépio: Inicialmente construído em madeira e palha (não era muito forte né?  hahaha), e posteriormente como está hoje, de pedra. Durantes as escavações, feitas ali, foram encontrados diversos objetos indígenas que podem ser vistos no museu dentro do forte do presépio.

Forte do Presépio - Belém do Pará

 

Rua Siqueira Mendes: foi a primeira rua aberta na antiga vila, dando início à construção da Cidade Velha. Digamos que é o berço da cidade de Belém.

Catedral da Sé: também é chamada de Catedral Metropolitana de Belém. É de onde parte a famosa procissão do Círio de Nazaré.

A Casa (ou Palacete) das Onze Janelas:  foi construída por um senhor de engenho no século XVIII. Sedia o museu de arte moderna e contemporânea mais importante do Pará e até alguns anos atrás havia um restaurante/bar no local, mas o espaço foi retomado pelo governo por estar deixando de respeitar as tradições da cultura paraense 🙁 . 

Casa das Onze Janelas- Belém do Pará

 

Passeios Zero Clichês

Durante minha estadia em Belém fui atrás de passeios fora das rotas tradicionais e encontrei pelo menos três que deram o selo de Zero Clichês para a minha visita.

Passeios com o Rodrigo Quaresma

 Um nativo, a idéia dele é fazer passeios que façam com que o visitante tenha uma experiência mais próxima a  cultura local. Ou seja, o DNA do Zero Clichês.

Ele me buscou de manhã e fomos em direção a marina, atravessamos o rio e chegamos na Ilha do Cumbu. Logo na entrada encontramos com um nativo, o Seu Ladir. Conversamos um pouco com ele e o Rodrigo nos levou para dar uma volta no quintal da casa dele: a Floresta Amazônica.

Seu Ladir - Belém do Pará

Seu Ladir segurando um cacho de açaí

 

O Rodrigo cresceu nos arredores e aprendeu com seus pais e avós sobre tudo que a floresta pode oferecer. No passeio provei diversas frutas das quais jamais tinha ouvido falar. Aprendi com que árvore os índios fazem arco e flecha (tem os galhos mais retos), como é extraída a borracha e outras diversas coisas que não vou contar pra que o passeio não perca a graça.

Árvore de Flechas- Belém do Pará

Árvore usada para fazer arco e flechas

 

Após essa introdução à floresta ele me levou para almoçar na casa da sua família, ali mesmo na Ilha do Cumbu. Seu pai preparou um peixe de dar água na boca e ficamos ali um tempinho conversando com a família dele. Conheci três crianças ali: entrei no rio com elas, nadamos no igarapé e nos divertimos. 

Crianças Ribeirinhas - Belém do Pará

 

Tem alguns outros trajetos e roteiros de passeios que o Rodrigo faz por ali (de barco ou não): passeios de lancha, viagens intermunicipais, tour noturno por Belém e City Tour. Não fiz todos, mas tenho certeza que cada um tem algo de muito legal: tudo ali é muito diferente e alguns lugares só podem ser acessados por barcos. A média dos preços dos passeios é de 80 reais, não passando de 150 por pessoa. O almoço é 50 reais já com a entrada. Também vale muito a pena.

Tucano - Belém do Pará

 

Cerâmica Marajoara: o Rodrigo me levou para conhecer o lugar onde são feitas as cerâmicas marajoaras, em uma vilazinha a 50 minutos de Belém. O que achei mais legal desse passeio é que você pode fazer a sua própria peça de cerâmica e comprar as peças que eles enviam para todos os lugares. É óbvio que eu fiz a minha!

* Dica de Ouro: Faça esse passeio no primeiro dia, assim você tem tempo para que a cerâmica seque e você possa levá-la com você!

Passeios com o Nedson

Ao chegar na marina, fomos para o barracão dos canoeiros e o Nedson deu algumas instruções, de como remar e etc. 10 minutos depois que cheguei já estávamos no rio. A aventura começou, atravessamos e fomos direto a um igarapé (braço do rio). As águas ali são bem tranquilas e é como se fosse um “condomínio” do povo ribeirinho, com “piscina” exclusiva. Ele faz um preço bacana para grupos (desconto progressivo). Se você for sozinho é um pouco mais caro (não mais de 100 reais), mas vale a pena com certeza!

Tiramos várias fotos incríveis na paisagem e tentamos entrar na casa de uma conhecida dele para conversar, mas ela tinha saído. Ali na mata encontramos com dois homens tirando palmito da árvore do açaí, eles viram minha decepção ao não encontrar a senhora que iríamos visitar e perguntaram se nós queríamos conhecer a casa deles e da sua família. Pegamos o caiaque e rumamos a casa do Nena. Batemos ali, e quem nos atendeu foi a Rose, que foi mega simpática.

Ficamos ali por pelo menos uma hora e meia, brincamos no balanço e comemos cacau juntos. As crianças me mostraram cada parte do seu jardim: a mata da Floresta Amazônica. Me impressionou muito a inocência das crianças, o modo simples e puro com que vivem e se divertem.

Crianças Ribeirinhas - Belém do Pará

 

Na hora da minha partida, as crianças que tinham percebido que eu AMEI cacau, me deram 3 cacaus pra levar comigo: um maduro, um médio e um verde para que eu comesse de 3 em 3 dias e guardasse a semente do último para plantar na minha casa, já que eu demoraria para chegar. E mais do que isso, cada um deles me deu uma cartinha: foi uma experiência emocionante!

Lembra da foto da casa abandonada do post anterior? Então: o chalé era de propriedade de um dos mais poderosos barões da borracha do Estado do Pará, o Senador José Porfírio. A construção é cercada de mistério e quem conhece a história dali não sabe porque o atual dono não reforma ou restaura a casa. Alguns dizem que é por que é mal assombrada! Eu preferi não arriscar: e você? Arriscaria? 😀

Chalé do Senador José Porfírio

Olha como era o chalé que hoje está abandonado!

 

Beijos e qualquer coisa, contem comigo!

Gi Salvatti

Comments

  1. Lalinha Bueno
    janeiro 13, 2018 / 10:46 am

    Amei a história e não sabia da parte que haviam morrido 250 no barco em ar 🙁 ai que dó!
    Mta história e beleza nessa sua viagem ein?
    Sobre as crianças é lindo ver essa inocência é ela que nos faz imaginar e acreditar em tudo, realmente é lindo, parecem anjos!
    Sobre o chalé não acredito que seja mal assombrado mas melhor visitar em grupo né? ahahhaha

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