A Festa de São Benedito: Marujada

Marujas na Marujada

 

Cheguei em Bragança no dia 26 de dezembro. Este é considerado o melhor dia do ano pelos moradores da cidade, porque nele é comemorado o dia de São Benedito. Ele não é o padroeiro oficial de Bragança, que é Nossa Senhora do Rosário, mas acabou sendo eleito como uma espécie de padroeiro do povo bragantino, que reconhece no humilde Santo Preto (discriminado em sua própria denominação religiosa), a sua própria identidade.

História

São Benedito nasceu no sul da Itália, em 1524. Ele era filho de um casal de escravos e foi liberto por um costume dos senhores de escravos daquela época, que beneficiava com a liberdade o último filho homem. Foi pastor de ovelhas e acabou descobrindo sua vocação religiosa ainda jovem, se tornando um eremita. Um monge franciscano, tocado por sua força de vontade, resolveu convidá-lo para a vida religiosa e ele então se tornou um membro da ordem franciscana.

Conta a história que o jovem, sempre que saia do mosteiro, levava de sua cozinha alguns pães escondidos debaixo de sua batina para aliviar a fome e o sofrimento dos escravos, pobres e necessitados. Certa vez seu superior, desconfiado, pediu a ele que erguesse suas vestes. Ao invés de pães, como que por um milagre, surgiram flores. Por isso, as flores estão sempre presentes nas fantasias e em outros detalhes da Marujada, parte mais conhecida da Festa de São Benedito.

São Benedito - O santo preto

 

A tradição da festa começou com os escravos, em meados de 1879, que iam de casa em casa dançando em agradecimento à permissão dada pelos senhores para que pudessem criar a Irmandade de São Benedito e sua igreja. Ao longo do tempo, o povo passou a realizá-la também como motivo de agradecimento ao santo pelas preces e milagres alcançados, assim como ainda permanece até hoje.

A Festa

A celebração começa no dia 18 de dezembro, bem antes do início oficial das festividades, quando a cidade começa a ser enfeitada e decorada sob o comando da capitoa: uma mulher eleita que só deixa o cargo depois de sua morte ou em caso renúncia. Ela escolhe uma sub-capitoa para substituí-la neste cargo caso seja necessário.

No nascer do sol do dia 25 os fogos dão o início das festividades e todos se vestem de azul em homenagem ao nascimento de Jesus Cristo. No dia 26, o mais esperado, o vermelho predomina em homenagem ao padroeiro: as moças se vestem de marujas e os moços de marujos. Perto das 16h uma procissão se inicia e percorre mais de 5 km pelas ruas da cidade, emocionando e convidando todos a homenagearem o Santo Cozinheiro, justo representante da força e resiliência do povo bragantino.

Marujada - Gi de Maruja na Festa de São Benedito

Eu sendo maruja por um dia!

 

As festividades não começam e nem param por aí: a turma é animada. De manhã o povo se encontra no centrinho da cidade em frente a orla para um leilão. Mais tarde, dançam o xote bragantino ao som das rabecas, sanfonas, da zabumba e do triângulo. Também dançam a roda, o retumbão (dança mais popular da Marujada), o chorado, a valsa, a mazurca e o bagre, todas elas danças típicas da região.

Acontece também a Cavalhada, uma competição feita por cavaleiros (divididos em time azul ou time vermelho) montados em seus cavalos. Eles têm que cavalgar pegando argolas durante um determinado percurso e quem pegar mais sai como vencedor. Há pouca competitividade, tornando tudo uma grande brincadeira. A diversão é garantida!

Cavalhada - Festa de São Benedito

 

Curiosidades

A Marujada e a Festa de São Benedito são somente uma parte da celebração anual realizada em homenagem ao santo. Ainda tem a “esmolação”, que consiste no pagamento de promessas e que começa em março ou abril, conforme calendário desenvolvido pela igreja.

Os senhores de escravo só permitiram a criação do templo ao santo dos escravos, e a realização da festa, porque sabiam que seria impossível lidar com uma revolta dos escravos. Dessa forma, eles poderiam festejar, se divertir, e sentirem-se livres (pelo menos por alguns dias) da sua difícil rotina de trabalho.

Marujada

 

São Benedito é curiosamente um dos santos mais humanizados do mundo. Os fiéis acreditam que o santo tem seus dias de bom e de mau humor. Quando a vela não quer acender ou algo acontece durante uma reza, eles logo constatam que o dia provavelmente não vai ser fácil.

A Marujada também acontece (com algumas diferenças) no Maranhão: não há uma fronteira clara entre os dois estados para os povos e suas crenças, então é natural que a cultura tenha se espalhado por ali.

É da tradição deles comer a pitomba, uma fruta muito presente por lá, e jogar o caroço no outro. Não preciso nem comentar de como fica o chão, né? Aprendi essa na raça porque jogaram em mim também 😀

 

Beijos e qualquer coisa, conte comigo!

Gi Salvatti.

Giovanna Salvatti
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