Viagem para Trancoso, Bahia

Nessa semana eu trouxe pra vocês as belezas desse distrito baiano. Neste último post da série, pretendo falar mais do que aprendi sobre os costumes e a história desse lugar. E, claro, da minha experiência de conversar com quem conhece e vive a essência de Trancoso e da Vila do Quadrado.

Trancoso é terra tomada de estrangeiros e forasteiros, sustentada pelo turismo, mas também é terra de gente simples: de marisqueiras, guias turísticos, cozinheiros, de artesãos e pescadores. São essas pessoas que permanecem, entre idas e vindas e temporadas de sol e de chuva. Lá pude encontrar pessoas extremamente acolhedoras e, apesar das dificuldades, de bem com vida.

Acredito que é com essa gente que temos tanto a aprender. Gente essa que é a própria alma do seu lugar, que aprende ao receber turistas de tantos outros cantos do Brasil e do mundo, mas que preserva suas raízes e seu modo de vida simples, autêntico, alegre e bem humorado (ok, isso é quase de praxe na Bahia).

Curiosidades sobre Trancoso

Possui um dos mais novos teatros do Brasil, sendo ele o único no mundo a possuir duas plateias sobrepostas – uma superior aberta e uma inferior fechada, ambas com capacidade para 1.100 lugares. Foi projetado pelo arquiteto luxemburguês François Vallentiny.

Trancoso pode ser considerada uma das vilas jesuítas mais antigas do mundo. O distrito era, na realidade, uma aldeia indígena chamada de São Sebastião dos Índios, criada cerca de 86 anos depois da chegada dos portugueses no Brasil. Como comentei no primeiro post, ainda hoje, sedia uma aldeia Pataxó. Vou falar mais sobre isso no final desse post.

Aonde mais é possível fazer cavalgadas pela areia da praia? Sim, deve haver outros lugares, mas não é algo tão comum de se presenciar: Trancoso às vezes me parece um misto de região litorânea com cidadezinha do interior.

Na Vila do Quadrado, fala-se muito de uma figura, considerada responsável pela tradicional Festa de São Sebastião. O seu nome é João Dançador, baixinho e galanteador. Ficou famoso por sua disposição em dançar em cada edição dessa festa como se fosse sua última. Era casado com Carmosina e, no Quadrado, criou seus muitos filhos (não souberam me dizer quantos). Não há quem não tenha ouvido falar dele.

Mesmo sendo uma das localidades mais visitadas, a rota turística não costuma sair muito do Quadrado :D, com exceção de Caraíva. Estamos aqui, eu e vocês leitores viajantes, para trazer o que há de fora dos roteiros mais comuns, e contribuir com uma mudança sobre isso!

Conversa com Nativos

Ao conversar com alguns nativos um detalhe chamou a minha atenção, uma opinião que é unânime: preferiam a Trancoso de antigamente. Tanto Foguinho quanto Nel contaram, orgulhosos, como tudo era mais simples. A luz demorou mais do que o usual para chegar por lá: pouco mais de 30 anos atrás. E até pouco tempo a alimentação se limitava praticamente a produtos de culturas próprias: peixes, inhame e coco. Mesmo assim, e apesar de todas as comodidades que a civilização trouxe, eles parecem sentir sempre muita falta do passado.

Nel Estrela D’Água

Nel Estrela D'Água em Trancoso

O trancosense Nel demonstra morrer de saudades daquele tempo na Vila do Quadrado. Ele diz que os dias hoje são bons, mas logo se mostra bastante nostálgico: fala de como era a tradicional festa do Bumba Meu Boi, antes de começar a receber uma enxurrada de turistas.

Em tom de tristeza, ele relembra: “a região do quadrado que não é mais quadrado, é retângulo”. Conta com saudade sobre as casinhas coloridas que antes eram habitadas por nativos, que criavam suas galinhas no quintal e que hoje deram espaço para comércios e restaurantes que antes nem existiam na cidade.

Fala das antigas brincadeiras como o baleado, a corrida de saco, a corrida de jegue e o pau de sebo. Os torneios de futebol que acabaram e a trave que assumiu apenas um papel decorativo.

Era costumeira e agradável a interação que acontecia entre os vizinhos: no final da tarde todos se encontravam na praça São João. “O povo vivia mais da pesca, o vizinho pescava hoje e dava um pouco pro vizinho e o outro dava farinha, temperinho verde, feijão (…) fazia um escambo. Não tinha iluminação em nada: era tudo com lampião, que tinha que abastecer com querosene. Mas era 19 horas e tava todo mundo dormindo”.

Nel é barman e trabalha há 20 anos na pousada Estrela D’água. Entrou logo que Beth e sua irmã assumiram a pousada. Começou trabalhando como jardineiro, passou por diversos cargos: fez de tudo, e agora faz os melhores drinks de Trancoso.

Foguinho

 

Foguinho em Trancoso

Um típico baiano apaixonado, ele diz: “Trancoso é uma cidade muito maravilhosa, a cidade é conhecida mundialmente. Tem muitas coisas interessantes, é só você vir pra conhecer. Venha conhecer que você não vai se arrepender”, fez questão de frisar e convidar os leitores do meu blog.

Foguinho é um artesão incrível e muito preocupado com o rumo que o planeta está tomando: “tudo que você hoje faz e está prejudicando a natureza, só tá prejudicando a nós mesmos e nossos filhos que vão vir aí (…) tem que cuidar da natureza”. Ele é pai de 7 filhos e vende suas peças de artesanato no centro da cidade. Apesar da paixão frenética ele conta que preferia algumas coisas do passado, a saúde, a segurança são o que fazem ele querer voltar no tempo.

Perguntei a ele se havia alguma pessoa que, na opinião dele, fez história na região. Sem muita demora, citou Carlos Parracho, uma das personalidades que aparentemente mais deixou sua marca na região de Porto Seguro. Foi um dos principais agentes no desenvolvimento da cidade: foi prefeito, duas vezes vereador, presidente da câmara e dono de uma das pousadas da vila.

A história do Brasil começa aqui!

Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles (1832-1903)

Foi pertinho de Trancoso, em Monte Pascoal, que Pedro Álvares Cabral chegou, no ano de 1500. Ele estava tentando chegar nas Índias (não nessas que você está pensando: era como chamavam o Oriente Médio, naquela época) e foi parar no Brasil (será que era ruim em Geografia? hahaha). Ele veio com sua nau e seus 1400 homens: foi aí que começaram a capitalizar roubar o Brasil.

Somente dois dias depois que eles chegaram, tiveram contato com os índios e rolou aquele climão: cada um achava o outro muito estranho. Li na carta de Pero Vaz de Caminha que os portugueses ficaram chocados com o fato dos índios andarem pelados sem cobrir suas vergonhas (o mais engraçado é que ali pertinho ainda resiste uma praia nudista).

Além disso, eles queriam levar uma amostra de tudo para o rei de Portugal: papagaios, cascavéis, arcos e flechas, a tinta que eles passavam no corpo e principalmente um montão de pau-brasil.

Quatro dia depois da chegada de Pedro e sua turma, o Frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa porque queriam catequizar os índios antes que os protestantes chegassem: nesse dia começou o desmatamento criminoso da mata atlântica, depois que eles derrubaram uma árvore para construir uma cruz. Já que não tinha como tirar uma selfie: Victor foi lá e pintou um quadro.

Espero que vocês tenham gostado e se divertido com esta última parte da série sobre Trancoso. Foi um enorme prazer falar dessa viagem pra vocês.

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Um beijo e qualquer coisa, conte comigo!

Gi Salvatti.

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